Em conversa a portas fechadas com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Nelson Jobim, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou claro ontem que quer o PMDB como vice de sua chapa à reeleição. Jobim, que deve sair do STF no início de março, é cotado para a vaga, embora o comando do PMDB insista na candidatura própria. Ele não se furtou a conversar com Lula, apesar de estar sendo criticado por expedir liminares que vêm impedindo a CPI dos Bingos de ter acesso a dados sigilosos de amigos do presidente.
Jobim ainda não é filiado ao PMDB, mas pretende assinar a ficha em março se perceber que há condições favoráveis para que o partido apóie Lula. O problema para o governo é que o PMDB já marcou até prévia para a escolha do candidato à sucessão de Lula, em 19 de março.
Estão inscritos para a disputa interna o governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, e o ex-secretário de Governo do Rio Anthony Garotinho. "Se Jobim quiser se inscrever também, será bem-vindo", comentou o presidente do PMDB, deputado Michel Temer (SP).
Lula disse a Jobim, no Palácio do Planalto, que não tem pressa, porque não anunciará a candidatura antes de junho. O presidente deu sinais de que, para ele, o que é importa é o PMDB em sua chapa, embora tenha dito que respeitará qualquer decisão do partido.
Além de Jobim, Lula também tem afagado Rigotto. Na tentativa de agradar ao PMDB, o presidente indicou que, mesmo se os três ministros do partido - Hélio Costa (Comunicações), Saraiva Felipe (Saúde) e Silas Rondeau (Minas e Energia) - deixarem a equipe para disputar as próximas eleições, as pastas continuarão na cota peemedebista. Dos três ministros, o único que não pretende concorrer é Rondeau.
Por causa do encontro com Lula, Jobim faltou a um compromisso no Tribunal Superior do Trabalho (TST). Oficialmente, os dois conversaram apenas sobre critérios para a escolha de um novo ministro para o STF. A 11ª cadeira da corte está desocupada desde 19 de janeiro, quando Carlos Velloso teve de se aposentar compulsoriamente aos 70 anos.
Indagado pelo Estado sobre a conversa com Lula, Jobim limitou-se a sorrir. Não disse nada.
Na quarta-feira, na abertura do ano judiciário, ele fez um discurso político em cerimônia no STF. Diante do presidente, disse que é necessário garantir a governabilidade. Os colegas de Jobim no tribunal demonstram crescente insatisfação com o fato de ele manifestar pretensões políticas.
O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Roberto Busato, afirmou ontem que Jobim precisa definir logo se é ou não candidato, para evitar um desgaste maior da Justiça. "Tendo em vista que o calendário eleitoral está se apressando, a fulanização se torna inevitável", disse Busato. "Jobim é um bicho político e, como tal, tem a boca torta pelo cachimbo da política, daí as especulações", provocou Busato.
A permanência de Jobim no STF, segundo o presidente da OAB, está criando "um momento difícil para a corte suprema".
Busato acrescentou: "É evidentemente antagônica a participação político-partidária frente à sobriedade exigida pela função de magistrado, de modo que a permanência dessas especulações não faz bem ao Judiciário."
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