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Prisão de Geddel Vieira Lima deixa em alerta aliados de Michel Temer

04/07/2017 09:19:00 | 133 pessoas já leram esta notícia. | 10 usuário(s) ON-line nesta página

Aliados do Planalto se esforçam para dissipar a ideia de que detenção do ex-ministro numa semana decisiva no Congresso influenciará a avaliação de parlamentares quanto à autorização para o processo contra o chefe de Estado no Supremo Tribunal Federal
Geddel Vieira Lima é acusado de obstrução à Justiça com base em informações do doleiro Lúcio Funaro

A prisão do ex-ministro Geddel Vieira Lima  trouxe mais problemas ao governo em uma semana que já não seria fácil. O presidente Michel Temer precisa apostar todas as fichas na relação com a base governista na Câmara para derrubar a denúncia de corrupção passiva apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Com a possibilidade de o procurador-geral, Rodrigo Janot, apresentar outra denúncia hoje ao Supremo Tribunal Federal (STF), e com parte dos deputados receosos em assumir um compromisso público com o Planalto, a prisão de um dos homens que, até pouco tempo atrás, estava na "cozinha" de Temer pode ser o motivo que alguns precisavam para autorizar a investigação contra o presidente.

Geddel foi detido preventivamente pela Polícia Federal, na tarde de ontem, na Bahia, acusado de obstrução de Justiça nas apurações da Operação Cui Bono?, expressão que significa "A quem interessa?". Desdobramento da Operação Sépsis, a investigação foca em irregularidades na Caixa Econômica Federal cometidas na época em que o peemedebista era vice-presidente de Pessoa Jurídica do banco. Com Geddel, passam a ser cinco os presos preventivos na operação: os ex-presidentes da Câmara, Eduardo Cunha e Henrique Eduardo Alves, o doleiro Lúcio Funaro e André Luiz de Souza.

De acordo com a decisão do juiz federal da 10ª Vara, Vallisney de Oliveira, o político baiano tem agido para evitar que o deputado cassado Eduardo Cunha e o doleiro Lúcio Funaro fechem acordo de colaboração premiada. Em depoimento à Justiça, Funaro citou mensagens e ligações para sua esposa que o ex-ministro teria feito. Ele entregou imagens da tela do celular para comprová-las. Com o codinome "carainho", Geddel sondava a mulher de Funaro sobre a disposição dele em fechar delação com o Ministério Público Federal (MPF). O advogado de defesa do ex-ministro, Gamil Foumlppel, afirma que o peemedebista foi "injustamente enredado no bojo da Operação Cui Bono?" e que "deposita sua integridade física nas mãos da autoridade policial".

Sem relação
Ao saber da prisão, aliados do presidente rapidamente se mobilizaram para afastar a situação de Geddel do trâmite da denúncia contra Temer. Líder do governo no Congresso, o deputado André Moura (PSC-SE) reconhece que é algo que traz instabilidade, mas afirma que não há qualquer relação com a peça que será apreciada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) a partir desta semana (leia mais na página 3). "Não há nenhum tipo de conexão da prisão com a denúncia. A prisão é por conta de uma suposta tentativa de obstrução à Justiça. Espero que os membros da CCJ analisem a acusação em si, que tenham, acima de tudo, responsabilidade com país e com o momento que estamos vivendo (...) Não podemos permitir que esses fatores externos possam ser utilizados na CCJ na tentativa de trazer mais discussão", comenta.

Entretanto, o descolamento dos fatos não será fácil. Por mais que esteja fora do governo desde novembro do ano passado (leia memória), Geddel é um dos principais aliados de Michel Temer e um dos pilares da sua carreira política, ao lado de Eliseu Padilha, ministro-chefe da Casa Civil, e de Moreira Franco, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência. O político baiano, aliás, é citado por Joesley Batista, um dos donos do grupo JampF, na gravação com Temer que originou a denúncia em análise na CCJ. No diálogo, Joesley comenta que perdeu o contato com Geddel porque ele virou investigado e o presidente o alerta que é "perigosíssima a situação", porque isso poderia ser considerado obstrução de Justiça.

Em outro trecho, Joesley fala que vinha se comunicando com o presidente por meio de Geddel, mas, como não era mais possível, pergunta quem seria a outra pessoa. É quando Temer indica o deputado Rodrigo Rocha Loures para o contato. Flagrado carregando uma mala com R$ 500 mil que seria para o presidente, Loures foi solto no sábado.

Para o deputado Julio Delgado, (PSB-MG), a detenção de mais um homem do "núcleo duro" de Michel Temer corrobora a tese apresentada por Rodrigo Janot na denúncia. "É claro que agrava o quadro do presidente. Demonstra claramente todo o esquema montado para interferir nas investigações e evitar delações premiadas", diz. "A situação está extremamente deteriorada. O governo terá de gastar muita energia para poder equilibrar o jogo. Ele está ficando sem aliados para defendê-lo", comenta um integrante da base que prefere não se identificar.

O cientista político do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) Geraldo Tadeu Monteiro concorda que a situação se complica. "O governo está sendo acossado por todos os lados. E, na Câmara, é um julgamento político, não é jurídico."

"In-su-por-tá-vel!"
Colega de escola e desafeto do cantor e compositor Renato Russo, líder da banda Legião Urbana, Geddel era considerado pelo artista como "in-su-por-tá-vel!". A história é contada no livro Renato Russo: O filho da Revolução, do jornalista Carlos Marcelo. "Filho do político baiano Afrísio Vieira Lima, o gordinho Geddel era um dos palhaços da turma. Chegava ao colégio dirigindo um Opala verde, o que despertava a atenção das meninas e a inveja dos meninos - que davam o troco chamando-o de "Suíno". Tinha sempre uma piada na ponta da língua as matérias, nem sempre. - Eu vou ser político!", destaca trecho da biografia.

Memória

Apartamento da discórdia
Em novembro de 2016, um apartamento em uma área tombada de Salvador foi o responsável pela queda do ex-ministro Geddel Vieira Lima. O problema começou quando o peemedebista comprou um imóvel do empreendimento La Vue Ladeira, na Barra, área nobre da capital baiana. Avaliado em R$ 2,6 milhões, o prédio ganhou destaque nacional depois que o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero pediu demissão do cargo e revelou que estava sofrendo pressão de Geddel para que intermediasse a liberação das obras pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Iphan), órgão vinculado ao Ministério da Cultura.

A construção do empreendimento havia sido inicialmente autorizada pelo Iphan da Bahia, controlado por um aliado de Geddel. Mas o Iphan nacional decidiu embargá-la por causa dos possíveis impactos em bens históricos da época da fundação da capital baiana, no Século 16. À época, Calero chegou a gravar a conversa que teve com presidente Michel Temer, no Palácio do Planalto, sobre a pressão de Geddel. Em depoimento à Polícia Federal, Calero disse que foi "enquadrado" por Temer, que interveio em favor do então ministro da Secretaria de Governo. "No episódio que agora se torna público, cumpri minha obrigação como cidadão brasileiro que não compactua com o ilícito e que age respeitando e valorizando as instituições", afirmou.

Fonte Correio Braziliense