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Servidores e militares veem com preocupação as nomeações na Defesa

06/03/2017 09:48:00 | 443 pessoas já leram esta notícia. | 19 usuário(s) ON-line nesta página

Militares questionam a presença de dois policiais civis em postos estratégicos do ministério. Agentes negam vinculação partidária, mas especialista critica o uso político de uma pasta importante para a soberania nacional
Policiais deixam a Câmara Legislativa no dia da deflagração da Operação Drácon: Celina Leão nega participação nas nomeações do Ministério da Defesa

A indicação política de policiais civis ligados ao PPS para o Ministério da Defesa repercutiu mal entre servidores de carreira e, principalmente, entre militares que atuam na pasta. Como o Correio mostrou ontem, os agentes foram citados em escutas ambientais da Operação Drácon e seriam ligados à deputada distrital Celina Leão (PPS). A parlamentar nega ter indicado policiais civis para cargos comissionados no Ministério da Defesa e atribui as nomeações ao chefe da pasta, o ministro Raul Jungmann, também do PPS. Os dois agentes refutam qualquer relação partidária e garantem realizar trabalhos acadêmicos dentro do ministério, bem longe da área de inteligência.

Os policiais civis Marcello de Oliveira Lopes, conhecido como Marcellão, e Welber Lins de Albuquerque ocupam funções estratégicas no Ministério da Defesa e teriam sido indicados por Celina Leão, que está no centro das investigações da Operação Drácon, deflagrada em agosto de 2016. As investigações apontaram a existência de um suposto esquema de cobrança de propina para a liberação de emendas para empresas de UTIs. Os policiais são citados em gravações ambientais realizadas com autorização judicial. Nos áudios, eles orientam Celina em um episódio no qual ela gravou uma conversa com Jeferson Rodrigues Filho, a pessoa que invadiu as mensagens de WhatsApp do governador Rodrigo Rollemberg (PSB).

Procurada, Celina Leão negou que tenha indicado os policiais civis para o órgão comandado por Jungmann. "Nunca indiquei nenhum dos dois. Foi uma escolha pessoal do Ministro da Defesa", afirmou. O ministro não foi localizado até o fechamento desta edição.

Especialistas criticam a partidarização em um órgão estratégico. "Não sabia que o Raul Jungmann aceitou até mesmo indicações de políticos regionais para o Ministério da Defesa", comentou David Fleischer, professor de ciência política da Universidade de Brasíla (UnB). "Foi um erro. Aliás, o Ministério da Defesa não deveria nem mesmo ter indicações políticas. Os militares não aceitam isso", afirmou.

Marcello de Oliveira Lopes é o chefe de gabinete do diretor do Instituto Pandiá Calógeras, órgão de estudos sobre estratégias de defesa. Welber é assistente da Assessoria Técnica da Secretaria de Controle Interno do Ministério da Defesa. Eles rejeitam qualquer ligação partidária com Celina Leão ou com o PPS. Os policiais garantem que não houve indicação política de seus nomes para a pasta. Ambos alegam que exercem funções não diretamente relacionadas com a área de inteligência da Defesa e que, portanto, não são estratégicas.

"Fui convidado pelo atual diretor do instituto (Demetrio Carneiro da Cunha Oliveira) para o cargo. Não tive indicação alguma e estou diretamente ligado ao meio acadêmico, organizando seminários. Tenho trabalhado em projetos estruturantes, sem nenhum relacionamento com a área policial. Meu trabalho é totalmente acadêmico e foge de qualquer meandro político", disse Marcello. Welber Albuquerque também negou que o cargo seja estratégico. "O trabalho que estou prestando é na parte de controladoria, dando suporte na auditoria de planilhas de projetos", afirmou ele, que garantiu ainda ter sido indicado por Marcello para o cargo na Secretaria de Controle Interno.

De acordo com fontes próximas à Defesa, o posto ocupado por Lopes é considerado importante dentro da pasta porque tem como objetivo buscar as melhores práticas em relação à defesa e é de assessoramento direto do ministro. O policial garantiu não ter relação com o PPS ou com qualquer outro partido. "A minha proximidade com Celina vem da igreja, apenas. Frequentamos a Comunidade das Nações. Não tenho nenhum outro relacionamento com a deputada", disse Lopes.

Obstrução

Os dois policiais admitem que tiveram contato com Celina exclusivamente para orientá-la durante uma oitiva. Welber teria sido indicado pelo delegado Flamarion Vidal, chefe da 4ª DP (Guará), para acompanhar o depoimento de Jefferson Rodrigues Filho. "Celina me pediu uma ajuda no passado, na época da investigação do Jeferson, e solicitou auxílio nesse sentido para evitar que ela fosse acusada de obstrução de Justiça", afirmou Lopes, queixando-se de que está sofrendo perseguição.

"A deputada pediu uma orientação sobre como proceder para receber esse homem. Dias depois, a pessoa que queria arrumar um emprego para a esposa foi presa. E tudo isso foi comunicado ao diretor da Polícia Civil à época", contou Lopes. "Tenho relação pessoal com Celina e não partidária. Não frequento partido e estão trazendo à tona uma situação de 2012, da época em que fui assessor do ex-governador Agnelo Queiroz", disse ele, sobre a citação de seu nome na CPI do Cachoeira. "Passei por uma situação desgastante, quebraram meu sigilo bancário e não provaram nada", completou Lopes, que é policial civil desde 1999 e garantiu não ter processos em sua ficha.

Fonte Correio Braziliense